A PRIMEIRA PROVAÇÃO DE ALCEU

Héracles Bebê Estrangula as Serpentes. Pietro Benvenuti (1817-29)

Alcmena havia tido duas crianças, dois meninos, um deles filho do grande Zeus, pai dos Deuses e dos homens, outro filho de Anfitrião, seu marido. O primogênito foi chamado Alceu, que era o nome do pai de Anfitrião. O outro foi chamado Íficles, mas o próprio Anfitrião não sabia, há este tempo, qual das duas crianças era seu filho.

Após o episódio com o leite de Hera, sob a oliveira, nos limites de Tebas, Zeus havia confiado a guarda do caçula à sua filha predileta, a Deusa de Olhos Gláucos, Athená, que, por sua vez, enviou sua coruja, com ordens de jamais deixar o berço dos meninos desprotegido. Eles sabiam que Hera, a temível Rainha dos Deuses, não havia desistido de seus planos nefastos para o bastardo de Zeus.

E assim foi feito. A coruja de Athená pousou na borda do escudo de bronze – que outrora havia pertencido ao derrotado rei dos teléboas e agora fora feito de berço para os recém-nascidos – e de lá não se ausentava, fosse dia, fosse noite. As duas crianças passavam seus dias ouvindo os pios, nos quais ressoavam as histórias da coruja de Athená, que também lhes protegia das noites frias com o calor de suas penas cinzentas e, nos dias quentes de verão, os abanava com suas grandes e poderosas asas.

O escudo que fora feito de berço para as duas crianças ficava, então, suspenso de maneira que pudesse balançar. Um dia, durante uma brincadeira dos dois, o pequeno Alceu deu um pontapé tão forte no irmão que o derrubou no chão. O pequeno Íficles não se machucou, mas Alcmena julgou prudente, a partir de então, baixar o escudo. A força surpreendente do jovem Alceu podia ser um indício de qual das duas crianças era, afinal, o filho de Zeus, mas uma demonstração ainda melhor estava por vir.

Em certa ocasião, um rato roeu o bordado primoroso no qual Athená vinha trabalhando com esmero fazia tempo. Furiosa, Ela ordenou à coruja que punisse o rato. Com um piado agudo, a coruja chamou Alcmena ao quarto dos bebês e a rainha pôde ler na clareza de seus olhos as ordens divinas de que fora encarregada. Alcmena, a coruja avisou, deveria cuidar de vigiar o berço dos meninos até que ela voltasse. A rainha convocou, então, doze aias para a função.

As doze mulheres sentaram-se ao redor do escudo e puseram-se a bordar e conversar. Com o avançar da noite, porém, uma a uma, elas foram cedendo ao sono. Quando as pálpebras da última delas se fecharam, um vento gélido irrompeu pelas janelas entreabertas, apagando as lâmpadas de azeite que iluminavam o quarto. Imediatamente, duas enormes serpentes, com peçonhas gotejantes de veneno, se formaram do emaranhado das sombras do lado de fora e rastejaram para dentro.

O pequeno Alceu, que também dormia serenamente, acordou com o som que elas faziam ao rastejar e com o tilintar de suas línguas úmidas e bifurcadas. Ao pressentir o perigo, instintivamente, o jovem deus se pôs em posição de saída baixa no berço, acordando o pequeno Íficles, que encontrou a direção das serpentes seguindo o rosto do irmão. Como era natural, o garoto, apavorado, começou a gritar, acordando, por sua vez, as doze mulheres que dormiam ao redor.

Ao ver as enormes serpentes enviadas por Hera, as aias fizeram um verdadeiro escândalo, gritando e correndo de um lado para outro dentro do quarto. A reação em cadeia logo faria com que todos no palácio estivessem de pé e corressem para o quarto das crianças. Anfitrião e Alcmena foram os primeiros a chegar… Mas a cena que veriam os deixaria sem reação.

Sob os olhos incrédulos e arregalados de Íficles, o pequeno Alceu, de pé no berço, segurava as duas serpentes uma em cada mão. Antes que Anfitrião recuperasse o tino e pudesse sacar sua espada, ele já as havia soltado. Mortas, as serpentes se desfizeram novamente em sombras ao tocar o chão.

Para os que haviam presenciado a cena, não restava dúvidas de qual das duas crianças era o filho de Zeus e, naquele momento, todos, inclusive Anfitrião, se curvaram, prestando reverência à criança divina. Mas foi o leite de Hera, a rainha do céu e nutrícia da terra, que lhe deu a força e a resistência sobre-humanas que lhe possibilitariam realizar todos os seus grandes feitos no futuro. Por esse motivo, ao final da jornada, quando ascendeu ao Olimpo e tomou seu lugar junto aos Deuses Eternos, ele assumiu o nome de Héracles, que significa A Glória de Hera, reconciliando-se definitivamente com sua madrasta divina.

Para muitas pessoas, Hera desempenha, no drama de Héracles, o papel de vilã. Muito longe disso, na verdade, foi Ela quem, desde o princípio, deu a Ele as chaves e as oportunidades para alcançar glória e eternidade. Ela, com certeza, não tornou mais fácil a vida do herói. Mas, bem, não existe herói em uma vida fácil. A chave para o entendimento disso, o deus carrega em seu próprio nome.

Que o poderoso Héracles, concebido na escuridão de uma noite que durou três dias, nos abençoe pelo inverno que se aproxima, fortaleça nosso espírito e nos seja favorável para que, a Sua semelhança, possamos vencer todos os desafios e rigores da vida.

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