Areté – Virtude, Competitividade e Excelência

Aracne era uma talentosa tecelã da Lídia. Contam os antigos versos que os pastores deixavam seus rebanhos, os atletas abandonavam os ginásios e até as ninfas saíam dos rios, bosques e fontes para ver o seu trabalho. Tamanha admiração pública acentuou a vaidade de Aracne, ao ponto de ela começar a afirmar que suas mãos teciam melhor que as de Athená, deusa dos ofícios, patrona da tecelagem.

Desafiada, Athená assumiu a aparência de uma velha senhora e veio para a terra, onde disputou com Aracne em um desafio que se estendeu por muitos dias. No termo desses dias, estavam prontas duas maravilhosas tapeçarias nas quais não era possível encontrar nenhum defeito. No entanto, ao passo que Athená bordara as façanhas e conquistas dos Deuses, Aracne resolveu bordar suas vergonhas. Isto fez com que a tapeçaria de Athená, pela virtude da sua obra, fosse considerada superior. Os deuses nunca tiveram a pretensão de ser perfeitos, mas é virtuoso e benéfico lembrar de alguém mais pelos seus acertos do que pelos seus erros.

Aracne, muito vaidosa, não aceitou a derrota que lhe fora imposta. Desfazendo sua própria obra, enforcou-se com os fios que outrora havia usado para tecer. Athená, compadecida, socorreu-a antes do último suspiro, transformando Aracne no animal que hoje conhecemos como aranha, sempre empenhada numa obra de tecelagem sem defeitos, mas por quase todas as pessoas considerada desagradável, um símbolo de sujeiras e impureza.

Em outra ocasião, Mársias, que havia encontrado uma flauta que Athená havia criado e da qual se desfizera, tornou-se um músico tão perfeito que encantava os ouvidos de mortais e imortais. Envaidecido das próprias habilidades, ele ousou desafiar Apollo, deus patrono das artes, em cujo cortejo caminham as próprias musas, para um duelo em que o vencedor poderia fazer o que quisesse com o perdedor.

Mársias tocou linda e profundamente, mas Apollo, com sua lira dourada, era mesmo insuperável. Como resultado da peleja, Mársias, o perdedor, fora pendurado em uma árvore e esfolado vivo…

Apollo, sempre excelente, pode, contudo, ser bastante cruel… E foi a sua crueldade que o fez desafiar o próprio Eros, filho alado de Afrodite, fonte de todo sentimento. Um dia, enquanto praticava com seu arco prateado, o filho de Leto acertou o talo de uma maça em uma macieira que estava muito distante. Eros, que havia assistido a demonstração maravilhado, se empolgou. Colocando-se ao lado do Divino Flecheiro, disparou uma de suas setas e logrou acertar a mesma maçã antes que ela caísse ao chão.

Apollo não gostou. Disse ou Infante Divino: “Afasta-te e me deixa praticar em paz, que o arco não é brinquedo para as mãos de uma criança.” Eros, aborrecido, respondeu: “É certo que tuas flechas são infalíveis. As minhas, pois, também nunca erram o alvo.” E, dizendo isso, o deus do amor se afastou, sacando duas flechas de sua aljava – uma de ouro, que infundia o puro e verdadeiro amor, outra de chumbo, capaz de causar irreversível aversão. A seta dourada mirou no coração de Apollo. A cinzenta, saturnina, o da ninfa Dafne, que passeava ali por perto. Apollo, tomado de um amor irresistível, cortejou a ninfa que, tomada de aversão irresistível, fugiu dele até se transformar em um loureiro…

O que esses mitos ensinam? Muitas coisas… A linguagem metafórica e poética dos mitos é capaz de falar sobre muitas verdades em histórias simples como essas. Vejo muitas pessoas falando sobre a arrogância, algumas atribuindo-a aos próprios Deuses. Isso certamente é uma possibilidade. Para mim, no entanto, esses mitos falam sobre virtude (ἀρετή). A virtude, que, mais do que fazer o que faz com excelência, é capaz de, em última instância, reconhecer-se no outro.

Nenhuma dessas passagens, afinal, teria acontecido de maneira tão terrível se, pela medida da comparação, um personagem não tivesse se considerado melhor do que o outro. Para essa medida, os antigos helenos tinham um termo, o único ato humano realmente desprezado pelos Deuses – húbris. Húbris significa desmedida. Desmedida é colocar as coisas fora de seu lugar.

Muitas sociedades humanas, como a helena, foram, e são, extremamente competitivas. Mas a competitividade, em si, não é uma coisa ruim. A competitividade ruim, creio que todos conhecemos. A competitividade boa, com a qual devemos nos familiarizar, é aquela que, pelo exemplo da excelência do outro, nos leva a buscar a nossa própria. E excelências, uma vez excelentes, nunca se comparam na expectativa de estabelecer superioridade. Pelo contrário, no momento em que incorre neste vício, a desmedida, a excelência se torna menos excelente e tropeça na armadilha de Éris: a vaidade.

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