SOMOS PAGÃOS?

A Máscara das Quatro Estações – Walter Crane

Não é nenhuma novidade que a palavra “pagão” foi retomada e ressignificada no contexto dos movimentos neopagãos que se originaram em meados do século XX. Da mesma maneira, foram retomadas e ressignificadas as palavras “bruxa” e “bruxaria”. Nos dias de hoje, porém, alguns segmentos, na tentativa de escapar ao contexto generalista neopagão, vêm tentando desvincular-se das terminologias “bruxaria” e “paganismo”. Trata-se de um esforço de estabelecer identidade diferente daquelas oriundas do grande caldeirão de crenças e costumes que se tornou o movimento neopagão; um esforço identitário no caminho de recriar, ou reconstruir, uma ligação mais autêntica com uma tradição específica, da qual se consideram herdeiros. Neste pequeno ensaio, e no que diz respeito às palavras “pagão” e “paganismo”, teceremos alguns comentários.

A principal alegação contra a designação “paganismo” parece ser o fato de que a palavra pagão tem origem no latim pagus, que significa campo. Pagão, portanto, refere-se àquele que é do campo ou às práticas relativas ao campo. Algumas denominações, notadamente de orientação helênica, alegam que sua religião apresenta um contexto civil, mais ligado à pólis (maneira como eram chamadas as antigas cidades-estado helenas), e não tinham um contexto agrário. Bem, há muitas coisas erradas nestas ideias. Vamos discorrer um pouco sobre elas…

Em primeiro lugar, é necessário dizer que não se pode confundir o conceito romano de urbes com o conceito heleno de pólis. São coisas diferentes. A urbes é o espaço urbano para os romanos, o espaço das cidades em oposição ao pagus, a região campestre, afastada do grande centro, e onde se leva um modo de vida rústico, voltado aos ciclos da natureza, uma vez que a principal atividade do campo é a agricultura. Ora, pólis, em contrapartida, era como os antigos helenos chamavam sua organização geopolítica. Não se tratava de uma área urbana, mas daquilo que chamamos em bom português “cidade-estado”. Eram núcleos, como pequenos países, que compreendiam tanto a parte urbana (ásty), quanto a parte campestre (khóra); tinham formas de governo distintas (se Atenas se tornou famosa pela democracia, Esparta, por exemplo, era uma diarquia), e, embora cultuassem os mesmos Deuses, muitas vezes seus aspectos religiosos, como formas de culto, eram completamente diferentes. Partindo disso, talvez fique mais fácil compreendermos que “a religião da pólis” era também a religião do campo (khóra).

Em segundo lugar, talvez devêssemos (ah, o vício do historiador…) contextualizar o heleno em Roma. Como sabemos, os romanos estenderam seu império por boa parte da Europa, abarcando inclusive a Hellas. O mundo grego, então, tornou-se subordinado ao mundo romano, e seus habitantes, mesmo aqueles mais proeminentes, como alguns filósofos, foram feitos escravos. Os romanos, de fato, se consideravam herdeiros dos helenos. Prova disso é seu mito fundador, que os coloca como descendentes de Eneias, que, na narrativa homérica, era filho da Deusa Afrodite. Mas, em sua herança, eles se consideravam melhores que seus antepassados, uma referência para o mundo. A própria ideia de civilidade é um conceito romano. Se os helenos chamavam de “bárbaros” aqueles que não falavam a sua língua, para os romanos eram bárbaros todos aqueles que estavam fora dos limites do império. Resta claro, pois, o lugar do homem heleno na organização social romana: certamente não na urbes; a própria pólis estava nos terrenos do pagus.

Por último, mas não menos importante, voltaremos a dizer que não havia uma distinção civil tipicamente helena entre os habitantes da cidade (ásty) e os do campo (khóra). E por que voltamos a isto? Para dizer que, ao contrário do que se pensa, a maior parte das festividades religiosas do mundo heleno tinham, sim, um profundo significado agrário. Hoje, algumas denominações religiosas de orientação helena guiam-se, a exemplo da sociedade contemporânea, por um calendário civil, com festividades religiosas em dias fixos. Longe de afirmar se tal prática está correta ou equivocada (o que fugiria ao propósito deste ensaio), parece escapar à compreensão destas denominações que o mundo heleno tinha alguns calendários diferentes, mas que todos eles, embora tivessem, de fato, datas fixas, eram sazonalmente orientados.

Não apenas no mundo heleno, aliás. Não é por acaso que o ano romano, por exemplo, no calendário juliano (46 aEC), começava no equinócio de primavera. Voltando à Hellas, as panateneias, por exemplo, que eram festas dedicadas à Deusa Athená, símbolo máximo da pólis de Atenas, tinham por objetivo principal pedir o favor e as bênçãos da Senhora de Olhos Glaucos para as colheitas… afinal, a cidade (ásty) vive do que o campo (khóra) produz.

Finalmente, devemos salientar que a palavra “pagão” surge não como uma denominação religiosa, mas como um insulto. É ingênuo pensar que pagano, em latim, assim como “caipira”, em português, designa apenas a pessoa que mora no campo, fora das cidades. São, ambas, palavras que denotam a ideia de pessoas parvas, de pouca instrução e modos rústicos. É, antes de tudo, uma ofensa; uma ofensa que já existia quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império, mas da qual os cristãos se apropriaram para se referir àqueles que ainda prestavam culto aos Deuses Antigos – pessoas xucras, sem instrução, em suma, ignorantes.

A palavra foi usada para se referir, posteriormente, não apenas aos insistentes devotos da antiga religião romana. Como Vlassis Rassias, secretário-geral do YSEE, costuma dizer: a Igreja agiu como uma espécie de anti-etnia, colocando todos sob a mesma égide: o cristianismo. Tal como os bárbaros de outrora, pagãos eram todos aqueles que permaneciam fora dos limites cristãos, às margens da sociedade e deste novo conceito de civilidade. É uma palavra que servia, portanto, não apenas para os helenos, mas para todos aqueles que estavam fora do mundo cristão, exceto judeus e muçulmanos (que representavam uma categoria distinta de heresia: a infidelidade).

Como as palavras “bruxa” e “bruxaria”, “pagão” e “paganismo” foram retomados e ressignificados de maneira positiva pelo movimento neopagão. É desnecessário explicar este complexo, e longo, processo, o que acabaria incorrendo numa historiografia dos conceitos. Para nós, basta dizer que é louvável a intenção de procurar distinguir-se, estabelecendo uma identidade própria nesta sopa globalizada em que se transformou o movimento neopagão. Porém, devemos ter um mente que se o termo “pagão” é insuficiente, não é por se tratar de um termo que alude religiões campesinas, tampouco por tratar-se de um termo ofensivo, já que seria demasiado elitista e preconceituoso continuar sustentando a ideia de que aquilo que vem do campo é moral e intelectualmente inferior.

Se é verdade que se trata de um termo insuficiente para estabelecer uma identidade, é porque ele é excessivamente generalista; abrange um número muito grande de grupos sociais e credos religiosos, que foram, todos eles, insultados, desvalorizados, apagados e sucessivamente perseguidos ao longo da história. É porque o termo “pagão”, em si mesmo, carrega não uma, mas uma pluralidade de identidades, que, já passou da hora, precisam emergir e se reconhecer.

Parafraseando o Fábio Firmino, em seu excelente ensaio “A perda de Identidade e a Crise do Espírito no Século XXI”, se não soubermos quem somos, nunca saberemos quem podemos ser.

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