OLHAR PAGÃO: UMA OUTRA LEITURA DO MUNDO

Este texto é fruto da palestra oferecida pelo ESP® – Encontro Social Pagão® do Rio de Janeiro, em março de 2016, na Quinta da Boa Vista. A palestra original foi ministrada por mim e pelo Fábio Firmino. Embora passeie pela História, já que dificilmente nós, como historiadores, conseguiríamos fugir da nossa área de estudo e atuação, este não se trata de um texto sobre história; tampouco temos a intenção de ser neutros ou imparciais. Trata-se de um texto religioso, filosófico e profundamente apologético, que procura resgatar os fundamentos de uma teologia essencialmente pagã.

E o que seria uma teologia pagã? Certamente, muito poucas pessoas que hoje se consideram pagãs ou se interessam pelo paganismo, nas suas mais diversas formas, já pararam para pensar um algo como uma teologia pagã. “Coisa de cristãos”, talvez possam pensar. Nada mais longe da verdade. Teologia é o pilar de uma visão religiosa do mundo. E, pelo que a história nos ensina, as primeiras visões de mundo não foram seculares, mas religiosas. Ser pagão é, portanto, mais que ser politeísta, mais que acreditar e prestar culto a vários deuses, é ter certa visão do mundo, entender a realidade sob certa ótica. E, não se enganem, realidade é interpretação. E, se realidade é interpretação, existe uma maneira pagã de interpretar a realidade.

“Mas de qual paganismo você está falando?” Esta é uma pergunta que eventualmente surgirá e é uma pergunta bastante pertinente, já que o mais certo é falarmos em paganismoS, assim, no plural, dada a imensa variedade de tradições religiosas pagãs no passado e no presente. Paganismo, vale lembrar, é uma palavra que surge com uma conotação pejorativa, em Roma, após a ascensão do cristianismo. Era algo como chamar alguém de “caipira”, retrógrado, atrasado, por alimentar crenças antigas e ultrapassadas. Foi usada pelos cristãos durante séculos para se referir a TODOS os povos, europeus ou não, que expressavam religiosidades naturais e politeístas. Esses povos, na antiguidade, possuíam uma vida religiosa muito intensa, não institucionalizada e praticamente inseparável do contexto social. A religião, para eles, estava diretamente ligada à sua maneira de ver e entender a realidade, de maneira que não podia ser pensada em separado da vida comum. Exatamente por esse motivo, a maioria desses povos não tinha um nome para suas religiões, e, algumas vezes, nem mesmo uma palavra para definir religião em língua nativa. Paganismo acaba se tornando, assim, uma palavra de sentido bastante amplo, que aglutina em seu significado um sem número de tradições diferentes, todas elas independentes, abundantes de semelhanças e idiossincrasias. Mesmo assim, com toda essa incrível diversidade, elas têm menos diferenças do que semelhanças entre si e é sobre estas semelhanças que nós vamos falar.

Voltemos à primeira questão colocada: realidade é interpretação. Isso também pode ser dito da seguinte forma: realidade é leitura. É claro, não estamos dizendo que a realidade é só o que interpretamos, só o que podemos ler. Platão descreveu a maioria dos homens como pessoas presas no fundo de uma caverna, interpretando a realidade através de sombras projetadas em uma parede. A realidade tem a exata dimensão que conseguimos dar a ela. Nós só podemos interpretá-la até o limite dos nossos próprios referenciais. Como conseguimos esses referenciais é a próxima questão que nos importa.

Nunca devemos perder de vista o fato de que nós somos animais. Animais que pertencem, inclusive, a determinada ordem – a dos primatas. Primatas, como as aves da ordem dos psitacídeos (papagaios), são animais sociais e com um imenso potencial cognitivo. A maior parte de seu aprendizado se dá pelo processo da imitação. Nós, seres humanos, que somos primatas, aprendemos vendo outros primatas – nossos pais, irmãos, familiares de todas as categorias, amigos, etc. Recebemos, no mais das vezes de maneira inconsciente, lições sobre como agir e sobre o funcionamento das coisas; aprendemos com nossos pares os referenciais necessários para interpretar a realidade e logo o fazemos à maneira deles, num processo que invariavelmente nos parece – e também a eles – bastante natural.

Assim, é comum que algumas coisas que não nos parecem de ordem religiosa nos soem apenas naturais. É a forma como as coisas são e temos tanta certeza disso que toda a nossa perspectiva da realidade estará moldada sobre esses alicerces.

Onde queremos chegar com toda esta conversa? Temos visto que um número cada vez maior de pessoas chega aos paganismos, adere à fé nos Deuses Antigos, passando a professar o politeísmo, mas com uma perspectiva de mundo essencialmente cristã. Tornam-se, como costumamos dizer, não pagãos, mas politeístas ao modo cristão, incorrendo em dissonâncias teológicas que na maior parte das vezes ignoram existir. Não fazem isso por mal, é claro, mas por absoluta incapacidade de fazer diferente. Não é uma escolha consciente.

Durante quase dois mil anos, o mundo ocidental esteve sob a batuta de uma forma de entender e interpretar a realidade – o cristianismo. Hoje, em um mundo secularizado como o nosso, em que buscamos cada vez mais um sentido de laico que é impensável na antiguidade, muitas das ideias cristãs sobre a realidade entraram para o nosso arcabouço ideológico sem que tenhamos consciência de sua origem, sem que, na maior parte das vezes, tenhamos parado para pensar sobre elas. É aquilo que os gregos da época clássica teriam chamado de ethos – o conjunto de hábitos e crenças que nos definem enquanto sociedade.

O problema é que o ethos cristão é radicalmente diferente do pagão. São inconciliáveis. Visões de mundo tão dissonantes que, sem medo, poderíamos dizer opostas. Dentro desse ethos em que a nossa sociedade – e nós, por extensão – está inserida, o paganismo é uma ideia deslocada de contexto, alienígena, mas nos oferece a maravilhosa oportunidade de colocar em xeque estruturas concebidas como inquestionáveis. O ethos pagão nos mostra que outra forma de pensar o mundo existe e já foi aquilo que se considerou natural por um tempo tão imenso de nossa história, que faria a nossa sociedade ocidental parecer apenas um sonho ruim.

UM MUNDO POLARIZADO: A QUESTÃO DO MAL

Como já dissemos, as diversas tradições religiosas conjuntamente designadas pagãs compartilham certas visões de mundo; visões de mundo em tantos sentidos semelhantes que conjectura-se a hipótese de uma origem comum, cujas dissonâncias seriam mero fruto das diásporas de povos com uma mesma ancestralidade – espécie de elo perdido. Outra hipótese, para nós mais provável, é que tanta semelhança tenha origem no fato simples de que os diferentes povos estavam falando do mesmo mundo, mas sob arcabouços de referência distintos – a cultura. Para exemplificar o que acabamos de dizer, não importa em que parte da Terra você esteja, brilhará sobre a sua cabeça o mesmo sol. E ele é tão importante aqui quanto em qualquer outro lugar, de maneira que sem sua luz e calor, a vida simplesmente não seria possível. O que varia é a intensidade dessa luz e por quanto tempo ela se encontra disponível em certo intervalo cronológico.

Quando dissemos, pouco acima, que o ethos cristão é completamente diferente do pagão, isso se deve ao fato de que o surgimento do cristianismo – e, antes dele, do zoroastrismo persa – representa uma ruptura histórica. O cristianismo, grosso modo, sinaliza o rompimento com uma visão de mundo e esse rompimento pode ser descrito essencialmente como a inserção de uma polaridade cósmica universal – o mundo dividido entre bem e mal, duas forças antagônicas e opostas que disputam a primazia da realidade entre si.

Estamos dizendo que antes do cristianismo não havia polaridade? Não. Estamos dizendo que era uma polaridade em termos muitos diferentes. Se você considerar a relação entre escuridão e luz, noite e dia, feminino e masculino, que sempre existiram nas culturas humanas, restará clara a presença de uma polaridade. Entretanto, na perspectiva de uma mentalidade pagã, esta é uma polaridade de complementaridade. A luz existe para preencher a escuridão. É a noite que “dá luz” ao dia. Masculino se une ao feminino para gerar uma nova vida e assim por diante.

O pensamento zoroástrico, por sua vez, inaugura uma nova compreensão do estado das coisas no universo. Não mais uma polaridade complementar, mas uma polaridade de oposição. Não mais a luz que nasce da escuridão; não mais a presença que surge da ausência, mas a ausência que se coloca contra a presença, numa relação de antagonismo até então inédita.

Antes da reforma de Zoroastro, coisas como bem e mal coexistiam harmoniosamente na essência de cada coisa, sem nenhum poder de definição. Eram apenas adjetivos, dados segundo a conveniência – ou não – das consequências de escolhas, nossas, das outras pessoas, dos próprios deuses; até mesmo no pensamento religioso hebraico, como deixa clara a passagem de Isaías 45:7 – “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.”

Zoroastro, profeta semi-mitológico a quem tradicionalmente se atribui a reforma da religião persa no século VII a.E.C., introduz uma perspectiva de bem e mal não mais como meros adjetivos acidentais. Bem e mal ganharam poder de definição. Absolutos, ancestrais. Agora havia a nova compreensão, revelada, da existência de uma consciência divina, fonte de todo o bem, luz, beleza… Enquanto à outra consciência cabia o papel de fonte primordial de todo o mal, escuridão e perversidade.

Este pensamento, a grande inovação teofilosófica do mundo antigo, encontrará espaço no fragilizado imaginário religioso hebreu do pós-Exílio Babilônico (587-538 a.E.C.), quando os cativos são libertados pelo poderoso Ciro II, rei do Império Persa Aquemênida, após a queda de Nabucodonosor. Surge, então, na religião dos Hebreus a figura de Satã. Satã, inicialmente apenas um anjo provocador, incumbido por Deus de testar a fé de seu servo mais fiel, sofrerá incontáveis metamorfoses até tornar-se o temível Satanás, inimigo número um da humanidade e de toda a criação, descrito apenas nos livros do Novo Testamento. Uma herança essênia, sem dúvida, e o mais relevante legado do pensamento religioso hebreu (persa?) à nova religião que tomava forma – o cristianismo.

Cristo, afinal, é o segundo, depois do próprio Ciro, a ser chamado messias. Ciro, o primeiro messias, havia libertado o povo hebreu do cativeiro babilônico. Cristo, seu herdeiro espiritual, deveria, ao menos inicialmente, libertar seu povo do jugo de Roma.

TEMPO PAGÃO X TEMPO CRISTÃO

Da divisão do mundo em duas polaridades que brigam incessantemente entre si, decorre o seguinte problema lógico – o fim da disputa. A competição entre bem e mal, representados pelas duas entidades, Deus e o Diabo, Ahura Mazda e Angra Mainyu, é a fonte da desarmonia universal. Ora, se o universo tende ao equilíbrio, a disputa não pode ser eterna. Se a disputa for eterna, significa que estar em conflito é o estado natural do universo, e, portanto, seu estado harmônico. A contradição resultaria na própria nulidade do conflito, uma vez que não haveria pelo que lutar.

Então a disputa entre as duas forças não existiu desde o início, não é mais velha que o tempo. Permanece no ideário persa a antiga noção de que tudo o que é mais jovem que o tempo deve conhecer um fim. Como, neste caso, o próprio tempo marca o início da disputa entre as duas potências, que brigam dentro e fora do coração humano, o tempo também chegará a um termo – o final apoteótico da guerra divina entre o bem e o mal, quando, de acordo com os profetas, o bem, ou sua consciência divina, deverá triunfar. Chamamos a isso escatologia. Toda escatologia é uma história do tempo e se há algo que nenhuma boa história deve deixar de ter é início, meio e fim.

O final dos tempos é outra marca registrada do pensamento religioso cristão. Nós, todos nós, já ouvimos pelo menos uma vez profecias sobre o fim dos tempos e os acontecimentos sinistros que o procedem (de doenças bizarras à passagem de cometas). O tempo linear, ou escatológico, é outra herança persa do pensamento religioso hebreu, que acabou se tornando parte intrínseca do cristianismo e sendo naturalizada por nós. É, como já dissemos, consequência lógica do dualismo de oposição e outra ideia completamente estranha a uma visão de mundo pagã.

Os paganismos, com suas religiosidades naturais, sazonais, enxergam a passagem do tempo, mas de outro modo – um modo circular. O círculo é uma forma que bem representa a noção pagã de eternidade. Ele não tem início nem fim. É possível estabelecer em qualquer ponto do círculo uma marca de contagem inicial, uma vez que ele volte a tocar nesta marca, recomeçará tudo outra vez, incessantemente. Além disso, o círculo é onipresente, está em toda parte para a qual se olhe. O sol passa todos os anos pelas doze casas do cinturão zodiacal, voltando à Áries depois de Peixes como a própria Terra volta à primavera depois do inverno. Da mesma forma, a lua cresce todos os meses até o apogeu do plenilúnio para depois decrescer até a escuridão do novilúnio e tudo começa outra vez.

Depois de cada noite, um novo dia. Até mesmo nós, seres viventes, efêmeros com nossas breves – e deliciosas – vidas, conhecemos alguma eternidade no interminável ciclo da vida (nascimento-morte-renascimento) a cada vez que vemos nossa descendência nascer e nossa ascendência morrer. O homem pagão não se preocupa com o fim dos tempos. A nossa espécie durará o tempo que tiver de durar. Depois de nós, os Deuses continuarão, e, com eles, a vida em sua dança ininterrupta, na qual a morte é apenas um passo, um intermezzo, que permite o início de um novo e gracioso rodopio repleto de novas e entusiasmantes promessas.

Diante disso, poder-se-á pensar – “mas a questão do tempo cíclico já está bem resolvida em nossas mentes.” Ao que prontamente respondemos – “será?”

TEMPO, PERFEIÇÃO E HARMONIA

“A verdade absoluta é irresistível à vida e tem imenso potencial destrutivo.”

 (Nilton Bonder – A Alma Imoral)

Como dissemos no início, há pensamentos hoje naturalizados cuja origem religiosa pode ter se perdido nas sombras de nossa memória coletiva… Mas, não se enganem, todo pensamento tem uma origem religiosa ou decorre de outro pensamento que tem.

A questão do tempo, por exemplo, que hoje pode parecer obviamente resolvida, possui desdobramentos não tão óbvios assim. Deixemos a religião de lado por um momento para pensar, por exemplo, na economia. O filósofo e historiador italiano Paolo Rossi, falecido em 2012, possui um primoroso trabalho publicado em português sob o título Os Sinais do Tempo, em que destrincha as diferentes perspectivas do tempo no curso da história. Se hoje é possível para quase qualquer um adquirir um bem de consumo a prazo, seja curto, médio ou longo, devemos isso a uma dessas mudanças de perspectiva.

A secularização do pensamento que se inicia com o Renascimento levou a uma reconsideração do significado de futuro. Se antes o futuro era entendido como algo lúgubre, a curto prazo, perturbado pelas sombras de um fim iminente, agora se tornava um lugar de esperança, promessa de dias melhores em um prazo cada vez mais esticado. O tempo não havia se tornado novamente cíclico, mas seu fim agora estava em algum ponto distante e ainda indeterminado. Então podemos vender e comprar casas que levarão décadas para ser completamente quitadas, ainda acreditando que elas servirão bem a nós, aos nossos filhos e netos. Alguns séculos atrás, isso seria impensável. O mundo, literalmente, podia acabar amanhã.

Isso nos leva a outra questão: em um mundo que pode chegar ao fim a qualquer momento, qual é a principal preocupação dos indivíduos? Preparar-se para o Julgamento, vivendo seus poucos dias segundo a vontade de Deus. Afinal, após o Julgamento havia a promessa de uma eternidade de paz… Ou de sofrimento.

A vontade de Deus, nesta sentença, é algo por si só opressivo, embora os teólogos cristãos tenham se esforçado durante séculos para tentar fazê-la parecer uma coisa boa. Nela, a origem há muito perdida de outra característica do nosso ethos nada pagão – a perfeição. Ora, a vontade de Deus é única, porque ele mesmo é único. Então há apenas um correto, uma maneira de ser, um único jeito de fazer as coisas. Um deus, um modelo. Viver o mais próximo possível desse modelo significa viver o mais perto possível da perfeição. Distanciar-se do modelo, por conseguinte, significa submeter-se ao juízo negativo, de si mesmo e dos demais; depreciar-se o próprio valor; em última análise, é fazer pender a balança cósmica para o lado errado na luta entre as duas potências pela primazia do universo.

Não há como negar que nossos julgamentos morais e nossos anseios particulares de progresso são guiados, ainda hoje, por esse ideal de perfeição, cuja origem é profundamente religiosa – e cristã. Ainda que tenhamos uma consciência vaga e superficial de que a “perfeição” é algo relativo e que nossos conceitos sobre certo e errado estejam passando, nos últimos tempos com uma constância nunca antes vista, por frequentes revisões, intimamente, ainda buscamos um ideal – um ideal que resulta das nossas próprias interpretações das repetições da infância e do ethos social – numa expectativa condenada a ser para sempre frustrada.

O paganismo não pensa em perfeição. O pensamento religioso pagão pensa em harmonia. Se a vida está em harmonia, então a vida é perfeita como está. Se suas mudanças seguem um fluxo natural, de maneira que a harmonia é preservada, então ela continua perfeita. Apenas o desequilíbrio é imperfeito e nós tentamos saná-lo na medida do possível.

Ao passo que o pensamento cristão demoniza a diversidade, porque ela se afasta de sua perfeição tão cara e idealizada, o pensamento pagão enaltece a diversidade, porque sem ela a vida não seria possível. Há infinitos Deuses, e Eles estão espalhados no céu, na Terra e em toda a parte. Não onipotentes e oniscientes, mas onipresentes na medida em que todas as coisas estão conectadas neste ciclo inquebrável de interdependência. Os Deuses não São transcendentes e distantes, mas imanentes e palpáveis. Não estão em algum ponto em que devemos alcançá-Los, estão aqui, por todo lado, a nossa volta, dentro e fora de nós; algumas vezes festejando, outras vezes sofrendo, outras tantas vezes guerreando, encenando e reencenando a dança cósmica da vida que repete e se repete, e que os nossos ancestrais chamaram carinhosamente mitos.

Nossos muitos Deuses estão em harmonia, como nas míticas bodas da filha homônima de Ares e Afrodite com Cadmo, o rei de Tebas. A diversidade Deles nos ensina que se há um perfeito, com certeza o perfeito não é um só. Há muitos bons, muitos corretos e infinitas maneiras de ser feliz e de viver em harmonia, cabendo a cada ser o direito e o dever de encontrar a sua. Este é, aliás, o sentido original da palavra caridade.

O PRIMITIVO PEJORATIVO E A FALÁCIA DA EVOLUÇÃO

Caridade é uma entre as muitas palavras que tiveram o seu sentido original deturpado, ressignificado. Se em tempos antigos ela se referia à busca por uma vida harmoniosa, plena de tudo o que traz felicidade, hoje fala da necessidade de dividir as bênçãos com aqueles que têm menos. Não que o último sentido não estivesse, no passado, contido no primeiro. Afinal, poucos são os homens realmente capazes de serem felizes sozinhos. Mas, no presente, é o primeiro sentido que se diluiu, perdeu-se no último.

Coisa parecida ocorreu com a palavra piedade. Piedoso, originalmente, era aquele que cumpria o seu dever, fiel ao seu destino. Hoje, um homem piedoso é apenas aquele dotado de compaixão. Não por acaso, as duas palavras tornaram-se, praticamente, sinônimos semânticos.

Todas essas palavras, que encerram, em alguma medida, um sentido de ordem moral, se originaram em outro contexto, sob a luz de outra ética, outro ethos – o ethos pagão. Todas as virtudes – bem como os supostos defeitos – da alma humana já existiam e eram bastante conhecidos antes do mundo ocidental assumir o paradigma cristão. Mas essas virtudes são reinterpretadas à luz da nova leitura da realidade, de maneira que possam caber e se adequar dentro dos sentidos e limitações das novas fronteiras ideológicas.

Dando um salto no tempo até épocas menos distantes de nós, encontraremos outras palavras, cunhadas sob o próprio manto da modernidade cientificista, cujos sentidos originais, no entanto, dissolveram-se rapidamente no ácido moral do ethos cristão. Evolução talvez seja o exemplo mais relevante de um conceito recente que acreditamos entender, mas estaríamos distorcendo voluntariamente no dia a dia se isso fosse verdade.

Toda vez que pensamos em evolução, nos reportamos à teoria do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), popularizada no aclamado livro de 1859, A Origem das Espécies. O que não nos damos conta é que Darwin jamais usou a palavra evolução com o sentido que geralmente lhe damos – progresso. Evolução, do latim, evolutio, era o ato simbólico de desenrolar pergaminhos e assim revelar a narrativa nele contida. Darwin, ao conjecturar sobre os movimentos biológicos que ocorriam na natureza, levando os seres ao aspecto que conhecemos hoje, acreditou estar desenrolando o próprio pergaminho da vida, então chamou a sua teoria de evolução das espécies.

Ao falar sobre evolução, no entanto, Darwin não o fez pensando em progresso, em um movimento para um estágio mais avançado; ele o fez pensando em adaptação. Os seres não sofreram metamorfoses biológicas no curso do tempo para se tornarem superiores, isso aconteceu para torná-los mais aptos. E aptos a quê? A viver sob condições diferentes toda vez que a própria Terra mudava (o clima, por exemplo) ou acontecia uma migração permanente. Adaptação.

Mas, então, como chegamos ao sentido de progresso, tão comum nos dias de hoje? Ora, certamente evolução é uma ideia que não se pensa de origem religiosa, afinal, mas científica. Kardecistas, sobretudo, estão bastante convencidos disso. O próprio Kardec ampliou o escopo darwinista da evolução das espécies para encaixar o espírito dos homens, acreditando estar seguindo um método puramente científico, num mundo admiravelmente secularizado. O pensamento científico, afinal, não é aideológico.

Para explicar a mudança de sentido que acontece ainda no século XIX, temos de voltar ao tempo escatológico. A noção de um tempo linear, que tem um início e caminha para um final. A secularização do pensamento, que começou no colapso da Idade Média, não deu ao mundo outras estruturas. O pensamento secular não leu a realidade outra vez, apenas a privou da esfera do sagrado. Se por um lado, como nos disse Paolo Rossi, o futuro tornou-se um lugar esperançoso, essa esperança se resumia na expectativa de dias mais duradouros. O tempo ainda caminhava para um final. E se caminhava para um final, devia ter um sentido – o sentido da História.

Religiosos diriam que este sentido era, tão somente, a glória de Deus. Homens seculares chamaram este sentido de progresso. Ora, o progresso é uma ideia que poderia florescer apenas em um ethos cristão. Se há um progresso, é porque existe uma meta, um objetivo, um modelo para ser perseguido, ainda que este modelo seja constantemente reinterpretado. Parece que estamos falando, outra vez, da perfeição?

Do pensamento de que a História caminha numa direção específica, o progresso, deriva a ideia de que a evolução, proposta por Darwin, obedece ao mesmo propósito. E, já que estamos caminhando, evoluindo para nossas melhores versões, isso significa que somos melhores hoje do que já fomos ontem. O futuro tornou-se um lugar de esperança, o passado, um lugar de trevas. Quanto mais distante de nós estivesse o tempo, mais ecos obscuros de corrupção e bestialidade lhe escapavam. O passado tornou-se o lugar do primitivo, do ultrapassado, do que devia ser definitivamente deixado para trás. A história, uma generosa professora a nos ensinar como crescemos desde tempos tão deploráveis, registrando os erros para que não nos assombrassem outra vez.

Talvez a leitura secularizada, cientificista, do ethos cristão o tenha tornado ainda mais distante do pensamento pagão que sua predecessora religiosa. Afinal, o passado também era o lugar do Cristo, e, se não do Cristo pelo mistério da ressurreição, com certeza era o lugar dos mártires.

Para o pensamento pagão, o passado é o lar dos ancestrais, que continuam vivendo através de nós e são a nossa ligação com os Deuses Eternos. “Sou um descendente da Terra e do Céu”, era o que deviam dizer os iniciados nos mistérios órficos ao se apresentarem para o guardião do Hades e requisitarem beber da fonte de Mnemósine, a Fonte da Memória. O passado, em que viveram os heróis, é o lar da Glória. A sabedoria dos Antigos, que vieram antes de nós e trilharam todos os caminhos que ainda vamos trilhar, é capaz de guiar os nossos passos no presente.

Quanto à evolução, não a de Darwin, mas aquela com o significado de progresso, é uma ideia desprovida de sentido. Pode ser que haja um surpreendente desenvolvimento tecnológico em nossa época, um desenvolvimento nunca antes visto, mas isto é tudo. Apesar de todo esse desenvolvimento tecnológico, fruto evidente da curiosidade cientifica, não vivemos vidas em condições tão melhores que nossos antepassados pré-cristãos (na verdade, alguns de seus engenhos permanecem sendo um mistério para nós) e com certeza a alma humana ainda é a mesma. Prova disso é o fato inequívoco da alegoria da caverna, de Platão, continuar sendo tão atual mais de dois milênios e meio depois.

CONCLUSÃO

Não temos a intenção de esgotar o assunto. Na verdade, como na palestra original, nosso propósito é apenas apresentar a questão, que suscita por si mesma mais perguntas que respostas. Acreditamos ser este o caminho.

Nos dias de hoje, em que há um admirável movimento pelas liberdades individuais, temos observado com alegria uma profusão cada vez maior de pessoas voltando-se para aquilo que chamamos espiritualidades naturais, as religiões da terra. Mas testemunhamos com tristeza que essa aproximação seja feita em termos de um ethos profundamente cristão, no qual o próprio paganismo parece uma sombra meio desbotada, deslocada de lugar.

Em outros termos, muitas pessoas têm aderido a uma concepção bastante estranha, para não dizer distorcida de paganismo, em que um panteão de Deuses existe sem identidade definida – verdadeiros Jeovás, transcendentais, onipotentes, onipresentes e oniscientes, habitando uma dimensão espiritual idealizada e distante de nós. Tudo isso em um mundo, uma realidade interpretada segundo um ethos social profundamente cristão, que considera, entre outras coisas, ideias de evolução espiritual, tempo linear e, algumas vezes, polaridade de oposição. Em outras palavras, não aderem a um paganismo, de fato, tornam-se politeístas ao modo cristão.

Não que seja uma escolha consciente. Como dissemos no início, muitas ideias que pensamos nossas ou muito naturais chegam a nós por nossos processos cognitivos e instalam-se nas estruturas de nossa compreensão de mundo, nossa leitura da realidade. Podemos passar uma vida inteira sem nos darmos conta de que há outras leituras possíveis. Em geral, não questionamos os nossos paradigmas, ou melhor, os paradigmas do mundo em que vivemos.

O problema disso é que a verdadeira riqueza do ethos pagão acaba se perdendo e com ela um mundo vasto de considerações enriquecedoras sobre a vida e a realidade. Não podemos nos contentar com um paganismo tão superficial.

Acreditamos que uma característica comum aos povos tradicionais da Terra, de cujas observações surgiram as primeiras interpretações da realidade, seja o olhar honesto sobre o mundo a sua volta. Ainda que estivessem todos no fundo de uma enorme caverna, interpretando sombras projetadas na parede de pedra pelo fogo atrás de si, eles tentavam entender a natureza e o mundo pelo que eram, não pelo que desejavam que fossem. Eis o que, para nós, significa a grande diferença entre o pensamento pagão tradicional e a reforma mazdáica de Zoroastro, que culminou na formação do pensamento cristão.

Após dois mil anos de história e muitas tentativas ferozes de levar à extinção toda forma de pensamento divergente, eis que o paganismo sobrevive e ressurge com força cada vez maior, na medida em que a pressão contrária diminui. O sangue de nossos ancestrais fala desde as nossas veias e, através dele, podemos ouvir as vozes dos Deuses a nossa volta. Algo na capa com a qual cobriram o mundo nos soa falso, parece artificial. Há um chamado íntimo na alma de cada um que nos leva a querer ver o que está por baixo. Este chamado, esta sensação inexplicável é a origem da inquietação que nos traz de volta às religiões da terra, buscando algo há muito perdido e que, uma vez encontrado, muda radicalmente nossas perspectivas sobre o mundo e a realidade, porque parece fazer mais sentido.

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